Olá pessoal!
Estou de volta após tanto tempo sem postar nada neste blog, mas como também tratamos de cultura, retorno agora com este texto fantástico encontrado no site http://tarjapreta.org/2010/05/24/lost/#more-699 sobre uma série também tão fantástica e intrigante que chegou ao fim com um último episódio ainda mais surpreendente.
Agora podemos perceber que lost é uma verdadeira série, pois não há meio termo, ou as pessoas gostam ou não gostam. Bem, não vou prolongar muito, creio que o texto abaixo já relata uma ótima opinião.

LOST (24/05/2010 por Felipe Pinheiro)
Damon Lindelof e Carlton Cuse tinham uma boa série em mãos, mas J. J. Abrams apareceu, e disse-lhes que poderia ser melhor. Disse-lhes que podiam flertar com a ficção científica, ajudou-os a transformar a história de um grupo de sobreviventes de um acidente aéreo em uma jornada espiritual, cheia de viagens no tempo, mistérios e personagens dissimulados. E, então, Abrams partiu, deixando nas mãos de Lindelof e Cuse responder se eram homens de ciência ou homens de fé. Jack Shepard abriu os olhos, começando, assim, a melhor série da história da televisão mundial.
Nada foi o mesmo após Star Trek, Star Wars ou o Senhor dos Anéis. Nada será o mesmo após esta série. Amada por uns, odiada por outros tantos, cativante, decepcionante, misteriosa, lenta, alucinante, inconstante, cheia de constantes, sem rumo, completamente planejada, ficção, drama, amor… única. O final de Lost, óbvio demais, e ao mesmo tempo surpreendente, trágico, ao passo que também é feliz, expõe o que é este show, um dos marcos da história da cultura pop: um programa complexo, que não teve medo de superestimar a inteligência de seus espectadores, que não fez concessões, provocou discussões, debates, reflexões.
O programa, então, disse: assim eu terminei. Não como vocês querem, mas como eu preciso terminar. Leia sobre seu trajeto e a derradeira vez que ouvimos “previously on Lost”, mas cuidado com os spoilers.
Durante muito tempo se discutiu qual a intenção da série, o que eles realmente queriam dizer. No final das contas, este entendimento é a separação entre a falha e o sucesso de Lost. Gene Roddenberry mostrou homens corajosos, que foram onde nenhum outro homem jamais ousou, George Lucas nos apresentou uma ópera espacial onde o puro mal precisava ser contido, Tolkien contou a derrocada de uma era e o nascimento de outra. Lost, por sua vez, apresentou a história de pessoas que se encontraram quando se perderam, na maior tragédia de suas vidas.
Não era sobre mistérios, nunca foi. Passamos seis anos assistindo ao que julgamos ser uma série de ficção científica para só então compreendermos que era sobre espiritualidade. Não preciso saber todas as respostas sobre a vida para que eu possa compreendê-la, para que eu possa desfrutar do amor, da amizade. Em meio à jornada de redenção daqueles personagens que aprendemos a amar, as respostas ao mistério da ilha parecem tão pequenas, pois trilhamos um caminho muito superior à isso tudo.
Jacob era alguém especial ou um pobre coitado, iludido por uma louca que passou-se por sua mãe, agarrado, como Locke, Wildmore e Ben, à idéia de ser especial apenas para não enfrentar sua própria mediocridade? Seu irmão era um monstro ou apenas uma pobre vítima que tentava fugir, desesperadamente, de sua prisão? Richard Alpert era imortal ou, talvez todos na ilha não envelhecessem, e Jacob só o tivesse enganado, para dar-lhe uma nova fé? A iniciativa Dharma, no final das contas, foi apenas um pobre conjunto de cientistas lidando com algo maior do que poderia compreender, para, então, sem explicação, como todas as tragédias se formam, se ver pega no meio de uma guerra secular, e ser vitimada sem motivo algum?
Não importa. Estas perguntas dependerão somente de nós para respondê-las. Lost revolucionou a cultura pop nos fazendo lembrar de algo que há muito esquecemos, o motivo de sermos apaixonados por esta dita cultura pop, pois, através dela, conhecemos inúmeras religiões e culturas, histórias e povos. E pensamos. Somos levados a refletir a cada conto aparentemente sem importância que ouvimos. A série nos fez pesquisar, debater apaixonadamente, reaqueceu nosso desejo por desvendar o desconhecido, em uma época em que cinema, televisão e até, desafortunadamente, livros, estão nos menosprezando. Mesmo assim, nosso fervor renovado em iluminar os mistérios não tinha tanta importância, não em frente ao real significado de Lost: as pessoas.
Vimos Kate, destinada a tirar uma vida para se proteger, descobrindo a emoção de ajudar vidas a se manterem; o insensível Sawyer finalmente descobrir o que são amigos e uma mulher amada; Sun e Jin em uma releitura apaixonada da trágica história de Romeu e Julieta; a pureza inabalável de Hurley e a redenção do fantástico vilão Ben Linus. Vimos Claire e Charlie encontrarem sentido em suas vidas; Miles encontrar coragem e o torturador (e torturado) Sayid encontrar paz
Vimos John Locke finalmente receber os frutos de sua fé, Desmond Hume ter a certeza que estava destinado a encontrar Penny, seu grande amor, e Jack Shepard (e é incrível que passamos anos sem perceber a ironia do nome de seu pai, Christian Shepard, o pastor cristão) trilhar uma das mais majestosas sagas do herói jamais apresentadas. O amor foi o elemento recorrente e fundamental à série, que ativou os “gatilhos” necessários à reativar a memória de nossos “losties” na dita “realidade paralela/alternativa”: o amor de Sun e Jin pela sua filha, o amor de Locke por sua liberdade, o de Kate por Aaron, o de Sayid por Shanon, de Hurley por Libby e, por fim, de Jack por seu pai.
Tudo através de interpretações fantásticas( e não há como não destacar Micheal Emerson e seu Benjamin Linus) e ao som da trilha sonora de Micheal Giacchino: exata, que sabia ressaltar sentimentos, mas nunca forçá-los.
Ao término de Lost, nada de final feliz. Muito fácil, muito simples, muito chato, alguns irão ralhar. Desculpem-me, mas após acompanhar o nascimento, a vida e a morte de homens e mulheres tão fantásticos, tão complexos e cheios de bondade e pecados, assistir a seus sucessos e suas imensas derrotas, para, então, descobrir junto com eles, que não existe mistério maior do que o que vem após o fim de tudo, eu não posso dizer que concordo com os críticos. Aliás, não posso dizer mais nada. Esta história me tirou as palavras, me fez chorar, me fez rir e, mais importante, me fez imaginar.
O plano de Faraday, tomado por Jack, que tão desesperadamente queria expiar seus erros, escondendo sua falta de fé com a crença cega em uma possibilidade insana, não funcionou. O passado não foi mudado, o avião caiu e seus ocupantes morreram, de formas horríveis e sofridas, ao longo destes últimos anos. Uma outra realidade, onde eles viveriam felizes, retomando as memórias de sua outra vida, não fora criada, ao contrário de tudo que acreditamos. Eles morreram, afinal. Mas o que vem após a morte? Qual das religiões está certa? Estão todas certas? Eles precisaram passar por tudo aquilo para finalmente terem paz, onde quer que estejam agora? Mais mistérios. E cada resposta só provocará mais perguntas.
Quando Jack fechou os olhos pela última vez, após sua incrível jornada, Damon Lindelof e Carlton Cuse finalmente responderam: São homens de fé. Cabe a nós respondermos a mesma questão.
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